segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Crônica da semana

Pérolas aos porcos

Riqueldi Straub Lise

Universidade Positivo

Às vezes me surpreendo com a velocidade das inovações tecnológicas, e como essas novidades influenciam nossas vidas... Até dias atrás o que era mp3 agora é mp17. Ipod, Ipad, Blue Ray, TV High Definition 3D, Bluetooth, net book. Todas essas parafernálias eletrônicas nos proporcionam comodidades, velocidade de informação, precisão de imagens, entre várias outras coisas. Tais tecnologias tendem a tornar nosso dia-a-dia mais fácil, desde que tenhamos, domínio sobre estas e condições de consumi-las; caso contrário não nos serviriam de nada.

Para exemplificar esses avanços tecnológicos posso aqui citar as transmissões de partidas de futebol, em especial durante a Copa do Mundo da África. Uma maravilha: imagens em altíssima definição, dezenas de câmeras espalhadas por todo o campo, algumas deslizando sobre cabos, outras sobre trilhos e, ainda, algumas operadas por controle remoto. Tudo é filmado. Se o técnico faz qualquer tipo de expressão, tem uma câmera que o filma em tempo integral; os principais jogadores de cada seleção também têm foco de câmeras exclusivas, para documentar qualquer lampejo de genialidade; os juízes e assistentes são vigiados segundo a segundo: se o assistente demora para marcar o impedimento, ou se o juiz bate um papo informal com algum atacante, o mundo todo vai saber. Tudo filmado. Torcedoras bonitas nas arquibancadas então... Tela cheia, às vezes, até a ponto de se perder algum lance do jogo, mas aí, tudo bem. Replays em supercâmera lenta, ilustração do esquema tático das equipes em pleno decorrer do jogo. E, para que os presentes no estádio não percam nenhum lance, telões de altíssima resolução. Um espetáculo ímpar.

Considerando a velocidade com a qual essas tecnologias se proliferam, logo após o término da copa do mundo, algumas dessas novidades já se fazem presente nas transmissões do campeonato brasileiro, principalmente da primeira divisão. E se o espetáculo não for tão agradável, certamente, a culpa deve-se aos “atores”. E ainda às estatísticas: qual atacante marca mais gols fora de casa, porcentagem de erro de passes, de posse de bola, infinitas estatísticas. Todos os ingredientes necessários para que o telespectador tenha um sem-número de informações a uma altíssima velocidade.

Em contrapartida, se o nosso sentido visual se deleita com a excelente qualidade das transmissões, o mesmo não se pode dizer do sentido auditivo. Na maioria das vezes, as narrações dos jogos são esdrúxulas; os comentários e comentaristas, inúteis e despropositados, ainda mais quando uma horda de ex-jogadores e ex-juízes descobriram tal seara. Neto, Denilson, Emerson, Casagrande, Godói, Arnaldo e outros desfilam a “experiência” de já terem sido jogadores ou juízes de futebol, como se tal prerrogativa os habilitasse a comentar coerentemente uma partida, mas nem disso são capazes. Uma tristeza!

Dia desses, durante um jogo entre Cruzeiro e São Paulo, em um lance duvidoso, o juiz da partida marca pênalti para o time paulista. Aí vem o replay e mostra que o lance foi fora da área, e mais: mostra com riqueza de detalhes que o zagueiro da equipe mineira sequer toca no atacante. Tudo bem, o lance foi muito rápido, o juiz estava mal posicionado, e não vinha apitando bem. Errou, como tantos outros erram no calor da partida. Mas o Arnaldo César Coelho, comentarista de arbitragens, depois de rever o lance em câmera lenta por pelo menos cinco vezes, proclama: “é, juiz errou, foi só falta”. O narrador o provoca, perguntando se de fato o jogador são paulino fora tocado, e mais dois replays constatam que nada ocorrera naquele lance. Mas o Arnaldo, com toda a propriedade de ter sido juiz de final de Copa do Mundo, ainda admite ter havido a falta, mesmo que estivesse contrariando o replay – quiçá ele estivesse corroborando com a velha tese de Nelson Rodrigues de que o videotape é burro.

As transmissões de partidas de futebol no Brasil (com algumas exceções, presentes nas TV’s a cabo) parecem seguir uma lógica paradoxal: mesmo com todo amparo tecnológico a favor de narradores e comentaristas, estes parecem piorar dia após dia, transformando o prazer de assistir a uma partida pela televisão em uma tortura. Tantas imagens, estatísticas, informações, nada disso parece ajudá-los. A única coisa importante é “ter estado lá”, mesmo que isto se traduza num festival de gracinhas e baboseiras, que se estendem nas mesas-redondas. Remetendo ao início deste texto, este parece ser um caso daqueles, em que os indivíduos que lidam com as inovações tecnológicas estão despreparados para tanto.

2 comentários:

  1. O problema é que as emissoras fazem pesquisas verificando a popularidade dos narradores e comentaristas e a masssa tem empatia com figuras midiáticas como Galvão Bueno, Neto, Milton Neves, Godoy, entre vários outros. Se for ampliar basta pensar na popularidade de Faustão, Gugu e Silvio Santos. Infelizmente, para quem tem um gosto um pouco mais sofisticado, restam somente os canais de TV fechada, que geralmente são caros e, portanto, disponíveis a poucos. O que mais me surpreende é que com tanta tecnologia disponível a FIFA ainda mantenha o sistema de arbitragem arcaico, praticamente o mesmo desde a institucionalização do futebol um século e meio atrás.

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  2. André Alexandre G. Couto9 de novembro de 2010 11:17

    Caro Rick:

    Concordo com você e com o André também, e reforço que além da dificuldade humana em lidar com novas tecnologias (até hoje me recuso a usar algumas, não por arcaísmo, mas porque não consigo ver utilidade em certas ferramentas tecnológicas, por exemplo), a TV emprega estas pessoas por três motivos: têm a bendita da experiência de jogador ou de árbitro, não questionam o ambiente de trabalho ou o próprio meio televisivo (aliás, muito pelo contrário) e tornam a televisão mais popular, pois todos (ou quase, ainda bem) vão querer saber qual será a última idiotice que o Neto ou o Ronaldo (ex-goleiro) vai dizer ou o mais recente erro de português que o Edmundo vai falar. Tal processo é longo e engloba também o uso de jornalistas jovens e engraçadinhos na cobertura da última Copa. Lembram-se do Tiago Leifert, por exemplo? Para mim, mais um bobo da corte no reino da televisão. Estamos de bem jornalismo esportivo na televisão aberta ou não?

    Um abraço,

    André Alexandre G. Couto

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