terça-feira, 26 de outubro de 2010

Crônica da Semana

Invasão de Campo

por José Carlos Mosko
Doutorando em História - UFPR



No início dos anos de 1920, logo após lutarem na primeira guerra mundial, dois irmãos, Adolf Dassler e Rudolf Dassler, filhos de um tecelão pobre, iniciaram uma fábrica de sapatos de fundo de quintal na pequena Herzogenaurach, uma cidadezinha medieval na Alemanha, situada ao norte de Nuremberg.

Adolf, carinhosamente chamado de Adi, era um exímio sapateiro, viciado em esportes, criativo e obcecado pelo trabalho, se especializou em criar e desenvolver sapatos para prática esportiva numa época em que o esporte era muito pouco popular e totalmente amador. Rudolf tinha um temperamento mais expansivo e, com experiência em vendas, se dedicava a área comercial da empresa.

Na década de 30 a Grebuder Dassler já contava com mais de 70 funcionários e obtinha cada vez mais pedidos de vendas através de seus catálogos, principalmente após o sucesso da empresa nas olimpíadas de Berlim em 36, onde vários atletas ganharam medalhas olímpicas usando os calçados Dassler. Entre esses vencedores estava Jesse Owens, o americano negro que, ganhando quatro medalhas de ouro no atletismo, contrariou as afirmações de Adolf Hitler sobre a supremacia ariana.

O crescimento da empresa e a expansão dos negócios seguiam no ritmo proporcional às crises de relacionamento entre os Dassler. A diferença de temperamento entre os irmãos alimentava desentendimentos frequentes. Essa relação de intensos conflitos e acusações mútuas, agravados ainda mais durante o período da segunda guerra mundial, gerou a separação dos negócios entre os dois irmãos. Iniciava-se naquele momento uma verdadeira “guerra” no campo familiar e dos negócios.

Em 1948 Adi fundou a Adidas e Rudolf fundou a Puma. Adi criou as três listras brancas em couro que permitiam a identificação da marca mesmo para o público que a via de longe. Não perdendo terreno, Rudolf lançava seus calçados com um animal selvagem saltando sobre a letra D, tudo devidamente costurado em couro branco. Era o começo do que futuramente passou a se chamar de marketing esportivo.

Carentes de alguma forma de distração e entretenimento, as pessoas despertavam cada vez mais o interesse pela prática da atividade esportiva. Com a expansão da demanda de mercado e, principalmente com a participação dos filhos de Adi e Rudolf nos negócios das empresas, o que se desencadeou foi uma corrida no desenvolvimento tecnológico de novos materiais com uma concorrência cheia de estratégias e subterfúgios desleais, não limitados ao mundo dos negócios. Permeando os bastidores sociais, econômicos e políticos do mundo todo, com a finalidade de obter mercados e lucros cada vez maiores, as empresas acabaram se transformando em multinacionais bilionárias.

Essa fantástica história é narrada no livro “Invasão de campo” (2007), da autora Barbara Smith. A apaixonante narrativa demonstra como a Adidas e a Puma, que surgiram de uma fábrica de fundo de quintal após uma violenta briga de família se tornaram marcas internacionalmente famosas e multibilionárias e como elas influenciaram o comportamento e a história do mundo dos esportes.

A partir desse cenário, o livro revela assuntos fascinantes de transações com inúmeros jogadores famosos, entre eles Pelé, Franz Beckenbauer, Maradona e David Beckham, além de atletas consagrados em outros esportes como Muhammad Ali no boxe, Boris Becker e John McEnroe no tênis, entre muitos outros. Também são reveladas negociações com times de futebol como Manchester United, Real Madri, Barcelona, Liverpool, Seleção Brasileira, Argentina, Francesa, Italiana, Alemã e de outros países.

Na narrativa ainda é possível perceber os processos de consolidação, regulamentação e profissionalização do marketing esportivo, revelando a intensa concorrência com empresas como a Le Coq Sportif e a Umbro, bem como o surgimento fulminante da Nike e Reebok. Também é possível acompanhar o surgimento e desenvolvimento da exploração comercial de eventos como a copa do mundo e olimpíadas, paralelamente aos bastidodores de eleições de federações, confederações e comitês internacionacionais envolvendo nomes como Sepp Blatter, João Havelange e Juan Antonio Samaranch.

Enfim, além do aspecto curioso e informativo, o livro se torna imprescindível para o melhor entendimento do mundo esportivo em suas relações comerciais, evidenciando não só quanto os negócios caminham lado a lado com atletas, eventos e competições, mas, sobretudo como tudo isso foi sendo criado e desenvolvido, ficando evidente o quanto esse mercado se disseminou e o quanto está presente em nosso cotidiano, seja no acompanhamento de práticas esportivas profissionais, amadoras ou num simples passeio no parque.

Um comentário:

  1. André Alexandre G. Couto26 de outubro de 2010 21:43

    Caro Mosko:

    Bem legal este livro. Lembro que existe um documentário sobre esta história. Lembro também que na Copa do Mundo de 1974, Cruyff se recusou a vestir o uniforme da Holanda com a marca da Adidas por questões contratuais. A saída? Usou a mesma camisa, só que com duas listas...

    Um abraço,

    André Alexandre Guimarães Couto

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